de repente


Ismael Nery
 E DE REPENTE a vida inteira aconteceu, sem aviso prévio, sem nada. E de repente aconteceu. E tanto que ela esperou... Anos aguardando. E de um infinito da carne, onde TUDO surge, tudo. E de repente exatamente TUDO aconteceu. E ela se permitiu e seguiu e foi... ela se permitiu... SE permitiu, foi o cheiro. Ela sentiu o cheiro e gostou e quis mais. Nesse querer despencou de uma só vez, encontro entre o cheiro e ela. Pensou estar certa e errou e pesou e sentiu e continuou. E ainda é, ela ainda É o cheiro que despencou no exato momento do TUDO. E de repente ela acredita no que VIA e fingiu NÃO ver. Grandes conquistas de uma mente não exatamente excelente, mas fugazmente feminina. Uma elétrica busca do LUGAR onde ela pertence e que nunca está. Ela se permitiu saber mais sobre SI mesma e teve medo de saber mais e mesmo assim foi. Foi atrás do QUE que há em cada coisa. E quando o QUE da coisa barrou a queda ela sentiu... sentiu, SENTIU exatamente aquilo que sempre achou estranho de sentir, que ela NUNCA sentiu. Ela sentiu naquele momento que ELA mesma podia desaparecer. E no sumiço de SI mesma ela continuou. E ela VAI continuar, ela é teimosa. Ela É.

discursos aos montes


 
Possibilidades de novos montes de horizontes de uma carne frouxa que se descola do corpo e uma alma infinitamente em curso de um discurso ora satírico, ora sublime transpõe essa carne para subir ao Monte.
Montes de novas possibilidades de uma vida em curso de seu próprio discurso. E a carne frouxa que se afrouxa no passar do tempo.
Tempo de possibilidades aos montes de uma carne atropelada pelo curso desse discurso torto. E a carne frouxa se afina ao fino pedaço de calçada.
Calçada aos montes nesse curso de ritmos alterados no discurso do tempo. E a carne frouxa que atrai o osso nesse espaço.
Espaço de um novo osso que discursa a alma satírica de forma sublime. E a carne frouxa que sublima a própria sátira.
Sátira da possibilidade de um novo discurso que se contorce no tempo desse espaço de corte da carne, mas não desenrola.
Desenrolar do espaço da carne que se afrouxa ao passo desse discurso no tempo.

 
 
 
 

e vai

a vida mansa de um dia descomprometido com a própria vida.
em que se finge ser aquilo que se quer mesmo vendo as ruas rindo dessa falsidade que acalenta.
no espelho a imagem é pura fantasia de uma mente que delira por pequenos pedaços de um corpo que pende.
mas hoje tudo é naturalmente provocado por essa ânsia de deixar-se ser e levar-se pelo que vier. 
e vai.
vendo os carros que colidem e criam novas formas como um passo que a calçada joga fora.
a vida mansa de um dia descomprometido que se compromete a ressurgir assim que o espelho fantasiar a si sendo o mundo.
assim que essa ânsia derreta.
assim que a rua se cale.
assim que a calçada se torne gentil.

toda espécie de sentidos

        Uma negociação de paz consigo mesmo que não cessa de se reiniciar diariamente tentando manter vínculo com aquilo que há em volta, de uma respiração forte e cortada que atravessa o peito. E sem saber o que será esse rumo de passagens estreitas e quase impalpáveis de dias corridos pela frenética instabilidade humana. Mas o peito rasga e extravasa toda essa ânsia divina, de vida, de vozes, de vezes, de todas as respirações que vêm de uma época uterina e talvez até de muito antes, que não sabemos e talvez nunca saberemos, mas que carrega em si um sentido de existência que me traz o sabor do chão onde piso.

        Quanta coragem de assumir uma existência sem precedentes, sabendo-se único em dna e pensamentos perigosamente sãos. Passando anos em busca desse existir que já é desde o momento da respiração inicial. É ser e ser é tanta coisa junta, de toda espécie de sentidos, cores, sons, tamanhos, idades, sentimentos e tudo misturado sendo uma coisa só, mesmo estando separado.
         E com esse tempo que se esgarça e encolhe diante de tanta efervescência de existir parece que o corpo dança e gira, pula e sacode e o aguardo é a explosão que se anuncia. Ansiedade de um por vir que não se sabe se virá, o que virá ou quando virá e sabendo que quando vier imediatamente outra surgirá mesmo sem saber de onde vêm, outra sempre surge, porque é assim que toda essa engrenagem se sustenta e funciona e assim mais uma negociação se inicia para findar-se quando a vigília acaba e talvez reiniciar-se ao abrir os olhos, ou talvez seja outra ou outras sabendo que sempre haverá ao menos uma.

Guerra interna

Ilusão
Grandes olhos fundos, profundos
Obscuros
E nada...
Negros, cores várias
E negros
Abstratos sentimentos contidos
Presos
Mistério vivo no olhar morto
Magia hipnótica
Envolvente
Seria diluída
Dissipada
Seria viva
Se houvesse vida a escutá-la
A mentira supera
A omissão prevalece
A batalha já é ganha
E a guerra não começa
Ah ilusão...
Olhos fundos, profundos
Obscuros
E nada!
Nada se quer feito
Nada se quer tentado
Nada se quer falado
Nada!
Nada se pensa
Nada aguça
Nada é fato!
Os olhos negros
Não de cor, mas de abstrato
Permanece preso, morto
Ressurreição através do peso
A escolha errônea que se padece
O seu gradativo aumento
No limite chega exausto.
O mistério vivo liberta-se
O olhar morto dissipa-se
A hipnose finda-se
A escuta está ativa
E a guerra está travada!

Pequenos Devaneios.

 
Aeternus

Sabe, tem dias que...
E é sempre assim, acontece e tem sempre alguém para olhar...
Entende?
Será que alguém entende alguma coisa?

Às vezes o tempo pára. É, ele pára e é só para mim.
Hoje a vida está sutil.
E tudo é singelo e abstrato.
É outra a imagem da retina!

Às vezes tenho medo de baratas, ratos, leões e até formigas.
Mas as formigas não me incomodam tanto.
Às vezes eu ouço rugidos, gemidos e às vezes ouço vozes.
Vejo coisas que só eu vejo.

Penso em tantas coisas e todas ao mesmo tempo...
E elas fazem um enorme vendaval aqui dentro.

Porque essa exigência de clareza em tempos tão obscuros?
Sejamos... assim, simples assim.
Eu vejo e tudo se movimenta, mesmo os concretos e estáticos.
Tudo dança, balança e sacode.

Hoje é um dia bom de ver pessoas, dia de ficar só e entre amigos.
De chorar para saber o que é o vazio. Ou rir de se deixar rolar sem forças pra levantar. Dia de ser.

Os dias passam... visíveis e supostamente reais.
E eu sonolenta como um dia longo após longa insônia.
Em tempos de se perder o controle tento ser sutil. Algumas coisas não se escondem... E tudo bem, é uma coisa aqui que é desgovernada.


E é tudo sempre assim... Carne, pele, sangue, ossos, pessoas, relações, tudo espalhado no tempo e pelo espaço.

To ouvindo meu sangue correr...
É tão humano.

Agora faz silêncio, quero me sentir.
No mundo...
Com essa vida.

Quem...?

Lori sou eu, pianista, tenho 29 anos e... pois é, sou mulher, aquariana, viciada em valium, tomo muita vodka, mas não sou alcoólatra e tenho dupla personalidade.
Nasci em janeiro com um calor escaldante que quando a bolsa estourou minha mãe não sabia se era realmente a bolsa ou suor mesmo. Os dias eram tão áridos que nem tive forças para me virar na barriga e nasci de cesária.
Não sei o quanto isso influenciou na minha vida, porque dizem que influencia. Minha mãe conta que aos 3 anos eu disse que: “não queria ter vindo, foi papai do céu que me mandou”. Por isso acredito em Deus devo tê-lo conhecido, só não me lembro.
Comecei a tocar piano por volta dos 5 anos, minha mãe foi aos poucos me ensinando, dava aulas em casa e diz que o som e as melodias me encantavam desde bebe.
Pouco tempo depois que surgiram as primeiras manifestações do diagnóstico atual: dupla personalidade.
Nessa época acharam ser uma brincadeira criativa e que criatividade!
A primeira manifestação pública e realmente marcante de Hilda foi durante minha primeira apresentação de piano aos onze anos, lembro de estar na coxia me concentrando com minhas partituras, mas depois... me contaram que sentada ao piano improvisei paródias sobre três pessoas da platéia, o que não agradou muito e fui retirada a força do palco, dizem que sai rindo do teatro, mas só me lembro de estar em casa novamente.
Hilda é como eu a chamo hoje e ela de bom grado aceitou o batizado, suas manifestações começaram a acontecer em vários momentos do meu dia-a-dia, passei por situações constrangedoras a minha família, amigos, conhecidos e a mim. A essa altura meus pais se viram obrigados a tomar uma atitude e depois de alguns médicos, exames e exames e terapia veio a constatação, nessa época eu a batizei, tinha treze anos.
Poucos meses após o diagnostico fui internada numa clinica durante sete meses, nesse período Hilda manifestou-se algumas vezes, fez muito estrago, mas como a terapia era diária acho que iniciamos ali uma comunicação, tanto que nas últimas manifestações disseram que sua companhia foi quase agradável.
Assim que voltei da internação ela mostrou aos meus pais seu desagrado por termos ido para lá quebrando meu quarto, nessa época descobri que a vodka inibe as aparições de Hilda por algum motivo ao qual desconheço, elas não se dão.
Aos quinze anos só conseguia subir ao palco para uma apresentação sem interferências de Hilda, depois de tomar algumas doses de vodka com gelo, assim pelo menos os poucos incidentes que aconteciam eram devido ao álcool e não passavam de tropeções e uma certa dificuldade em virar as páginas da partitura.
Aos dezoito fui fazer uma turnê na França e lá fiquei, conheci Pierre com quem dividi o trabalho e a cama, moramos juntos por dois anos e meio. Mas não pode agüentar por muito tempo o temperamento de Hilda, ela não gostava dele, o insultava e agredia, não dá pra tomar um porre de vodka diariamente, hoje teria uma ulcera se ainda tivesse fígado. Bom, isso aconteceu muitas vezes durante o tempo em que estivemos juntos. A pior situação sempre foi a de Pierre.
Um dia Hilda pegou as roupas e objetos pessoais de Pierre e fez um monte em frente a casa em que morávamos, na da rua e esperou que ele aparecesse na esquina e pôs fogo, fez um escândalo e entrou, lembro de Pierre guardando o pouco que sobrou de suas coisas numa mala, foi embora naquela noite. Chorei e pedi a ele que não me deixasse, mas não houve como.
Internei-me voluntariamente em uma clinica no sul da França onde me viciei e com valium, antes só tomava alguns dias na semana, mas nessa época só sobrevivi graças a ele, estar sem Pierre me atormentava demais.
Um ano depois fiz um curso e conheci Juan, o professor, ele estava na França somente para isso e depois voltaria para Madrid, já recuperada de minha desilusão amorosa embarquei no vôo com ele direto para Madrid. Ele foi quem melhor soube lidar comigo, ou conosco.
Fiquei sete anos na Espanha, onde minha rotina se dividia entre noites calientes com Juan, festivais de música, teatro e dança, apresentações em diversos concertos, cinema, álcool e valium. Meu relacionamento com Juan continua. Hilda gostou dele.
Descobri isso quando disse a Juan já estávamos há alguns dias sem sexo e ele me disse “como assim? E ontem?”. Nesse momento entendi que Hilda realmente havia gostado de Juan, tomei uma decisão drástica e passei a comprar garrafas e garrafas de vodka para meu estoque pessoal e assim ter controle da situação.
Juan e eu fomos para a Inglaterra numa nova turnê e então conhecemos Tina, com quem trabalhamos nessa turnê que durou muitos meses, nossa relação foi se intensificando e aprofundando e quando vimos estávamos eu, ela e Juan envolvidos num ménage a trois.
O problema foi quando Hilda descobriu Tina, ela abominou a idéia de dividir Juan com outra mulher. Eu na verdade sou outra mulher, mas para Hilda acho que isso não faz diferença, afinal ela está em mim. Tina suportou o máximo que pode as intervenções grosseiras e agressivas de Hilda em nosso relacionamento, até que um dia acordamos e ela havia ido embora sem deixar rastros. A turnê havia acabado há um mês então voltamos para Espanha.
Hoje de volta ao Brasil sinto saudades das noites calientes pelas ruas de Madrid, Juan esta comigo e com Hilda, consegui depois de todos esses anos e experiências estabelecer uma parceria amistosa com Hilda, ela não interfere mais no meu dia-a-dia e em compensação deixo que ela passe uma noite da semana com Juan. Nesse dia Juan não me deixa tomar nenhuma dose, o que é um sacrifício enorme de minha parte, afinal estou acostumada a minha dose diária.
Juan gosta dessa diversidade que Hilda e eu oferecemos.
Nós decidimos ter filhos daqui uns três anos e o dilema hoje é decidir quem será a mãe, ela ou eu.

lá.


Jacek Yerka
 Quantas coisas reviradas nessas paredes úmidas e gelatinosas, imagens que deslizam numa velocidade lancinante que mal se respira, mesmo estando lá e sem estar lá. Pequenos apocalipses visuais que deturpam a visão, entopem as vias, transpiram inexatidões grotescas e rodopiam num vendaval.
Quantas vezes? Quantas vezes implorei, esbravejei e gritei pare que não entrasse?
Nessas horas nada se ouve... alguém? Alguém acordado?
E aos poucos e sem saber como e depois de infinita vontade e num só mergulho te pego.
Envolvendo as imagens numa rede de infinitas possibilidades e entre todas essas as causas são claras. Das muitas inflamações agudas. De toda essa bárbara e grotesca orgia de um bordel de imagens cruas.
Estou aqui.
Num repente a chuva cai numa espessura de longos fios de cabelo que se entrelaçam por milhares de quilômetros noite adentro.
Dentro disso a vida se acalma e adormece.
Numa sensibilidade de galáxias que colidem por existirem, criando imagens e ações e relações que se desdobram na eficácia de um só caminho tortuoso, instável e enfermo que se encanta com imensa expectativa de dias quentes e intensos onde nasce essa reviravolta de coisas que se completam nessas paredes fazendo sempre continuar.
O dia claro como a clara ressaca de uma noite falsamente alcoolizada que atravessa dias sem fome ou sono. Sendo simplesmente úmida e gelatinosa e pulsante nesse exato vendaval de estar lá sem estar lá. Pulsando muito mais que imagens... sendo.

Um pouco de verde da cidade!

sei? não sei!

quando a noite é longa demais ou o dia exaustivamente chato e só podemos olhar em volta e decidir o que fazer das poucas coisas que estão ao nosso alcance penso em como seria diferente se tudo fosse diferente e eu estivesse certa. quantas certezas de validades incertas no meio de um pequeno recorte de mundo que é o meu mundo. quando foi que deixei minhas incertezas na gaveta, são raras as ocasiões, geralmente caminho por caminhos tão incertos quanto as minhas incertezas e a única certeza disso tudo é que continuo incerta sobre o que será de tudo isso.

para ser simples e divertido

Amável e levemente excêntrico, como uma leve embriaguez de uma noite sem promessas, além de risos mais que necessários e exageradamente naturais. Por ser assim tão direto efêmero calculadamente insano e habilmente responsável, como um dia de trabalho que gira pela ressaca da noite anterior mantendo-se em pé pelo simples prazer da vida, assim simplesmente razoável para noites sem promessas. Noites longas que se dissipam num dia claro de sol nascente nos elevados concretos de uma grande cidade onde tudo se movimenta incessantemente. Os sons, as caras, os lugares e todo o resto das mais diversas categorias, ambientações, personalidades, excentricidades, disponibilidades, tipos, jeitos e trejeitos. Horizontes infinitamente verticais em suas condutas de vida e tudo isso com uma possibilidade absurdamente infinita de vivencias, convivências e relações. Quando isso se enraíza vejo a infinita grandeza de ser, estar e vivenciar minhas suaves personalidades e algumas profundamente excêntricas, sim, eu também sou muitas e muitos e venho de muitos lugares e de infinitas possibilidades. E só trago a mim. O que sei, vem das minhas historias e nem sei todas ainda, dos lugares onde passei e dos que ainda irei.


Seres tão racionalmente inteligentes providos de fala e quantas espalhadas pelos mais diversos ares, seres evoluídos e respeitavelmente estúpidos em suas próprias criações físicas e psicológicas, tentando ser mais hábil que a própria natureza e ainda assim crendo ser problema alheio, tentando ser civilizado e justificável em suas atitudes brutalmente irracionais desprovidas de qualquer tipo ínfimo de humanização para com outros seres.


E quando há um ato de horrorizantes atitudes se enchem de especulações e dor, choram e se lamentam. E é isso?


Atitudes para sermos simples e divertidos, humanos e humanizados, civilizados e sociáveis, respeitosos e respeitáveis, que as imperfeições de nossos atos sejam providas de volta, de desculpas, de aprendizados mas ainda assim com volta, justificáveis pelo simples fato de sermos humanos mas aprendendo com respeito a vida, nossa e do outro.


Simplesmente agir com respeito e amabilidade, vontade e crenças, virtudes e defeitos naturalmente saudáveis, diversidades e relacionamentos, socialmente, cordialmente e francamente honestos pelo menos em suas individualidades e isso já é suficiente para o nascimento de uma civilização.

identidade

Esses tempos logo passam.
As marcas invisiveis que só o corpo sente.
A profundeza só a alma vê.
E os sentidos transcendem.
Queda d´água alta e pura.
Queda d´eu em mim.
Os contrastes...
Cai o pano, a luz apaga, o silêncio...
Onde estou? Como estou?
Localizo-me pelo tato.
Uma visão noturna.
Sensibilidade das marcas.
Minha identidade.

o que te trouxe até aqui?

Um dia que corre atrás de outro e de outro e de outro... e corre atrás de você e você segue sem que isso te atropele... magnifico desempenho de uma criatura escorregadia deslizando pela vida para dar tempo de querer muito. Dentro disso sei que a loucura desse cotidiano tem uma parcela de normalidade. Um cotidiano piegamente charmoso, discretamente escrachado, talvez timido e até sereno de certo ponto de vista. E diria que até discreto demais, demasiadamente silencioso e perigosamente normal.
Uma normalidade cotidiana que está na realidade dos fatos. E fora dele? Fora há uma sutil intervenção daquilo que está em nós, mas que está fora da realidade, fora dos fatos, fora da normalidade, fora do cotidiano, fora do outro, que não reconhecemos mas está em nós....
Algumas tentativas do que poderia ser, pequenos gestos, algumas ações, uns olhares e poucas palavras, é sempre assim.
Não fosse o que te aconteceu e diria que não passam de pequenos devaneios de uma mente excitada e ansiosa. Olho você em dias como hoje e me vejo. Quando o dia está nublado saio de guarda-chuva, uma prevenção. Mas às vezes quero me perder na tempestade e vou só... uma catarse.
Se não fosse isso não estariamos aqui. O que te trouxe até aqui?
Nem sempre eu olho para frente, mas vou em frente sempre. Algumas consequências são até que bem vindas agora que já me acostumei a elas, talvez até sinta falta se por acaso elas não ocorrerem.
Talvez seja mais simples do que isso e se for é só uma questão de tempo ou talvez seja isso mesmo e sendo assim estou indo.
amo
amo
amo sempre
e hoje e ontem e para sempre!
sempre porque já é de outros tempos e será assim, simplesmente assim! sempre!
como ler as palavras doces, fortes, verdadeiras, que me inspiram, que suspiram de saudades, que falam simples, que é você, eu e alguns poucos mais, como ler e não me emocionar?
não sei... não sei mesmo.
quero abraçar-te neste momento em que lê estas linhas.
me lê e nos lê aqui! você.

não sei, eu acho.

quando penso estar em calmaria, me vem um sopro forte e repentino de turbulência...
vida... muita vida em pouco tempo ou seria um tempo de muitas vidas? acho que fico com a primeira, mesmo achando que a segunda também é válida. não sei, as vezes isso é a única conclusão a que chego sobre algumas coisas. agora,... não sei se sou eu que não compreendo ou se a coisa é realmente mais complexa do que imagino. enfim, diante de tantas possibilidades e probalidades a escolha pode ser fácil, ou se faz o que se quer ou se caminha pela trilha. e se não fosse assim, será que seria diferente?

O lugar onde me encontro...

Sinto que as ideias sejam,
que os sentimentos sejam,
que as emoçoes sejam,
que os sons e as imagens sejam,
sinto os sentimentos serem,
sinto eu ser e deixar-me ver,
sinto o ver,
sei o estar.
Identifico-me em mim.
Ressuscito,
Desencarno e reencarno.
Sobrevivo, descubro
E tenho fé.
Sinto, penso, vejo,
ouço, sou e vou.
Acredito que seja isso e mais um pouco.
E, é o mais um pouco que me interessa.

PÉS EM DANÇA

video

pés: desconhecidos - música: Yan Tiersen

re-ciclo?!!

Tenho pressa
pressa porque sei que o tempo passa
passa e não me leva, pois tem pressa.
E eu fico.
Fico porque sei que o tempo volta
volta e se repete sempre.
Ciclo fugitivo, vicioso, marginal
corre corre corre.
E não chega a lugar algum
uma roda gigante sem freio
gira gira gira.
E não para porque é um ciclo.
Tenho sede
e bebo o liquido salgado
aquele que escorre para sua fuga
desce pelo rosto e a lingua agarra
agarra e prende porque é fuga.
Tenho fome
me alimento e fome volta
volta porque o papel é fino
fino porque o conhecimento é pouco
pouco porque é grande o vício.
Tenho vida
vida que desgusta experiências
sente sente sente
dor, alegria, tesão, repulsa
sente e não mente à si
mente o que sente à ti
sente porque é marginal
sempre sempre sempre
Tenho pressa
é um ciclo.
Tenho sede
é fuga.
Tenho fome
é o vício.
Tenho vida
marginal.

La vie...



La vie... ah ma cherry la vie c'est tout!
Venez célébrer la vie!
Ensuite: Laissez-sauvages!

Sem sentido

Tempo incronológico
Ontem, amanhã, anteontem
Hoje, semana que vêm, mês passado
passado ado
futuro uro
presente ente
Arduo urro com os dentes
Do tempo lento
Tempo non sense
Tempo sem tempo

Artifíco-Ar

Fixei o olhar
Vi fogos de artifício
No olhar fixo
Do fixo céu
Azul
Escuro
Brilhante
Laranja
Vermelho
Vivo
Estrelas
Céu sol
Céu lua
Crua nua nuvem
Branca
Cinza
Chuva
Pura, ácida
Clara
Artificialmente natural
Cai
Naturalmente no artificial

!...

Olhos transpassados de tristeza.
Lábios retos pela indiferença.
Nem uma fagulha na pupila.
O semblante semelhante a uma tela,
Negra e chuviscada.
A chuva lava a amargura.
Antes cristalina, turva agora está.
No repente o fio se quebra.
E o negro que te assola,
Do início branco volta.

Casa

A casa vazia, cheia de lembranças,
Repleta de fotos e livros.
Muitas histórias.
Diversas vidas.
Cores dando vida ao cenário,
Um filme que se repete na retina.
O telefone parece tocar,
A porta parece se abrir,
Os objetos parecem falar.
E parece haver mil olhos a me ver.
Tudo continua parado,
São só impressões
Ou desejos
Estou serena observando.
Nada, nenhum sentimento arrebatador.
Ouço a música, a chuva
E vejo os relâmpagos.
Enormes clarões iluminando a noite.
Estou só e vejo o movimento da casa,
Percebo seus ruídos e vozes.
Estou bem, um tanto sensível...
Mas hoje a vida está sutil.
Nada me aflige.
Puxo o ar até o fundo dos pulmões
Sua entrada e saída são tranquila.
Gosto de sentir-me assim,
De estar assim.
Registro no corpo o que sinto.
Mas meus dias nem sempre são assim.

Sanidade.


Meia luz, uma parede
Lágrimas e olhos fechados
Perco-me sempre aqui dentro
E penso que achar-me
É estar sempre perdida
Ouço vozes ao longe
E pensamentos tão perto
Labirinto de amor e dor
Paredes escritas a mão
Com letra ilegível
Registrando minha história
Manicômio de sentimentos
Onde somos livres
E nesse mundo são
Insanamente agimos

Imagem Onírica.

Uma imagem simples, objetos de uma sala, almofadas e malas.
Algumas vozes. Uma melodia, ritmos, música.
E tudo dança diante dos meus olhos, uma luz branda, a brasa do cigarro.
E a caneta que trabalha.
Um conjunto que se afina,
e desafina... uma dodecafônia. Sons da vida.
Pairando sobre nossas cabeças a lua.
A noite e a volúpia desta sala...
das pessoas presentes, das que passam por aqui e das que se vão.
Tudo ecoa nessa desarmonia harmônica.
Um ritmo perfeito de insensatez e delírios.
Não preciso que me ajeitem as almofadas.
Não preciso que me arrumem as malas.
E nem o objetos, só quero sons.
Estou aqui e tão longe.
Tão longe perante o papel.
Escrevo, crio, recrio.
Invento meus dias e os recrio na escrita.